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22 de Fevereiro de 2020

10 M O T I V O S para o Produtor Vender a Fazenda e “Pendurar a Chuteira”

Por que Parar de Plantar pode ser um Bom Negócio ?

Rafael Krzyzanski, Advogado
Publicado por Rafael Krzyzanski
há 7 meses

Apesar do governo Bolsonaro estar “se virando nos 30” para contornar uma série de percalços na economia, inclusive em assuntos relacionados ao Agro, a verdade é que aqui na ponta, onde o Produtor Rural literalmente faz acontecer a produção de alimentos, o furo é mais embaixo.

Nesse cenário, o produtor é como um peixe atacado por piranhas, não sabe de onde vai vir a próxima “mordida”, e fica cada vez mais difícil e inviável tocar a atividade, haja vista as responsabilidades e riscos assumidos diante do mercado, do governo, dos órgãos “fiscalizadores”, das multinacionais de insumo, etc.

No mar de problemas que o produtor enfrenta, resolvemos listar os 10 MOTIVOS mais relevantes, que impactam diretamente no negócio, e que poderiam sim ser a razão para o Produtor pensar em vender sua propriedade e ir “pescar” em outras águas, deixando de lado a produção de grãos, vejamos:


Motivo 1 IMPOSTOS (ITR, IRPF, FUNRURAL, FETHAB, ENCARGOS TRABALHISTAS, ETC.)

Para qualquer cidadão, empresário urbano ou rural, a tributação tem se mostrado cada vez mais agressiva e determinante na viabilidade dos negócios. Para o produtor rural, especificamente, o aumento nas “Bases de Cálculos” de alguns impostos tem assustado, e a fiscalização do Governo tende à se intensificar, na medida em que o Estado precisa faturar mais.

O alerta máximo talvez seja para o Imposto de Renda, um tributo que de certa forma foi subjugado pelos produtores, e que até pouco tempo não representava muito impacto nas finanças, mas que agora, com o “crescimento da atividade”, começou impactar significativamente, e promete ficar pior.

Motivo 2 CUSTOS COM A PRODUÇÃO (INSUMOS, OPERACIONAL, MÃO DE OBRA)

À cada ano que passa o custo de produção tem aumentado. Isso é fato. Basta pegar qualquer planilha bem feita de um produtor médio para ver que a quantidade de sacas por hectare para custear a lavoura só aumenta.

Por conta da competividade de mercado e a extrema necessidade de produzir cada vez mais para continuar com a atividade, o Produtor se vê obrigado a aumentar o uso de adubos, correções de solo, medições, aplicações, etc, fazendo onerar os custos.

Motivo 3 CRÉDITO PARA CUSTEAR O PLANTIO (RECUPERAÇÃO JUDICIAL, DINHEIRO INDISPONÍVEL, JUROS, ETC)

O volume de dinheiro disponível para o produtor vem diminuindo sistematicamente. O crédito oficial do governo só diminui diante da crise que nos assola, e deixa uma lacuna gigante no mercado.

Essa lacuna vinha sendo preenchida pelas Tradings, mas estas também resolveram tirar o pé do acelerador e diminuir os aportes para o mercado, haja vista que, segundo elas, aumentou o risco de calotes por parte do produtor, resultado direto dos problemas enfrentados pelo setor, e também dos recentes deferimentos de Recuperação Judicial.

Motivo 4 RISCOS DE CLIMA (SECA, CHUVA, CONTRATAÇÃO DE SEGURO RURAL)

Esse é um velho conhecido do produtor e não tem como escapar. Além do risco de perdas abruptas por conta de secas ou chuvas excessivas, o produtor cada vez mais vê a necessidade da contratação de Seguro Rural para mitigar os riscos, fazendo com que a conta só aumente.

Motivo 5 PREÇO DE VENDA (DEMANDA, GUERRA COMERCIAL, INCERTEZAS)

A formação de preços das commodities nunca foi coisa simples. Em especial para a Soja, a incerteza sobre oferta nos EUA, disputa entre indústrias e exportadores no Brasil, e as demandas da CHINA, sempre fazem com que os preços fiquem cada vez mais voláteis.

A mudança brusca em um relatório internacional ou uma virada no clima em algum país produtor, por exemplo, pode frustrar todo planejamento financeiro do produtor, na eminência de ter que vender o produto ao preço que o mercado determinar.

Motivo 6 VARIAÇÕES NO CÂMBIO (ALTAS E BAIXAS INESPERADAS)

Outra incógnita que assola o produtor são as altas e baixas do Dólar. Essa moeda universal dita as regras tanto na hora de comprar os insumos para o plantio, quanto na hora de vender o produto colhido.

Esse é mais um dos riscos e “motivos” que o produtor não exerce nenhuma influência, e não há previsão de economistas que possa suprir isso de forma satisfatória.

O produtor vai dormir, e, quando acorda, pode levar um susto com o aumento absurdo dos insumos (dólar alto), ou com a queda nos preços do produto (dólar baixo), numa verdadeira gangorra.

Motivo 7 IBAMA E AFINS (LICENÇAS, AUTUAÇÕES, MULTAS, EMBARGOS)

Talvez já tenha sido pior, mas ainda hoje a “bandeira” da preservação do meio ambiente pesa muito nas costas do produtor. A quantidade de obrigações e responsabilidades imputadas ao homem do campo é descomunal, pois aniquilam a capacidade produtiva do país e engessam procedimentos que poderiam ser simplificados, impedindo o avanço da atividade.

Claro, a Lei deve ser respeitada para que não sejam cometidos atrocidades contra o meio ambiente, mas a “abordagem” até então feita por órgãos como o IBAMA, dentre outros na esfera Estadual, tem se mostrado despropositada e a aplicação de sanções ilegais e multas milionárias só desestimulam os investimentos tão necessários no setor.

Motivo 8 OBRIGAÇÕES FISCAIS ACESSÓRIAS (E-SOCIAL, NOTA ELETRÔNICA, ETC)

Não basta produzir, gerar renda, gerar emprego e pagar as contas. No nosso atual “sistema”, cada vez mais os empresários, e agora o produtor rural também entrou na “dança”, precisam gastar tempo, energia e dinheiro com os mais diversos relatórios fiscais e sociais para “prestar informações” ao governo.

O e-Social e a Nota Eletrônica “rural”, dentre outras exigências legais, vieram amarrar ainda mais a atividade e gerar os mais diversos custos para o produtor. São verdadeiros imbróglios burocráticos que desanimam qualquer empreendedor de continuar trabalhando e investindo.

Motivo 9 LIQUIDEZ DO INVESTIMENTO IMOBILIZADO (VALORIZAÇÃO DAS FAZENDAS, CUSTO-OPORTUNIDADE, RENDA)

É fato que, via de regra, o Produtor Rural tem um apego e paixão pela sua terra, pela sua atividade, pois geralmente a vocação para produzir vem de berço.

Mas quando se trata de ganhos financeiros, no sentido de obter renda, é no mínimo intrigante pensar que uma fazenda com 1.000 hectares de plantio possa valer hoje, cerca de R$ 60.000.000,00 (sessenta milhões de reais), sem contar os maquinários e eventuais benfeitorias.

No mercado de terras, a praxe é o pagamento parcelado. Mas se fosse possível aplicar todo esse dinheiro de uma vez só, e com juros de apenas 0,8% ao mês, o produtor teria uma renda anual de R$ 5.760.000,00 (cinco milhões e setecentos e sessenta mil reais), um motivo no mínimo inspirador para deixar a produção de lado e “assistir o jogo” da arquibancada.

Motivo 10 A PASSAGEM DO “BASTÃO” (ADMINISTRAÇÃO DA FAZENDA, SUCESSÃO)

Os agricultores são desbravadores e pioneiros por natureza. Pessoas que largaram suas famílias há 40, 50 anos atrás para ocupar outros rincões do Brasil e construir ali sua vida e seu negócio.

Ocorre que esses “Baby Boomers do Agro” estão hoje com idade média entre 60 e 80 anos, e já não conseguem gerir a Fazenda sozinhos como fizeram no passado. Não são poucas as famílias produtoras que estão assistindo seus negócios padecerem por falta de gente, por falta de ter os filhos engajados na atividade, pelos mais diversos motivos.

Esse gargalo é real e tende a se agravar à medida que o tempo vai passando, pois os Filhos, ou não participaram ativamente do crescimento dos negócios da família e não tem “perfil” para tanto, ou estão seguindo outros caminhos e profissões que não se relacionam com a atividade agrícola.

A Lista é longa, e motivos não faltam para repensar a atividade.

Ainda poderíamos falar da Insegurança Jurídica, da tímida Política Agrícola praticada no pais, e/ou da Falta de Estradas e de Capacidade de Armazenamento, assuntos que serão tratados em outra oportunidade, pois os 10 MOTIVOS acima listados já nos fazem perder o sono.


1 Comentário

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O produtor rural realmente mata "um leão por dia", são desafios constantes e diários. Mas o que mais desanima é que além daquelas dificuldades inerentes ao exercício da atividade (como por exemplo as climáticas e sanitárias), os produtores ainda têm que preocupar-se com aqueles que deveriam ajudá-los, em especial nossos governantes.
Constantemente criam-se novas leis, novos impostos, novos deveres e obrigações sem pensar se o produtor vai dar conta de tudo isso ou não, sem a menor preocupação com a sustentabilidade desses encargos... E o resultado, no final, acaba sendo esse aí mesmo... desânimo e desesperança...
Contudo, há que se reconhecer a força de nossos "homens (e mulheres) do campo" que estão aí, levando nosso país e economia nas costas, qualquer outra atividade entraria em colapso e ruiria nas mesmas circunstâncias... continuar lendo